" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

08/09/2026

Bairrismo: o que ficará sem a valorização das raízes e legados passados?

Por estes dias, a propósito de uma publicação sobre as romarias e o futuro das nossas comunidades, num bom artigo de reflexão do Tiago Afonso (de Pigeiros), na sua página de Facebook e no seu blog "Línguas de Perguntador",  troquei alguns comentários com o autor que me levaram a aprofundar uma ideia que, no essencial, partilho.

É evidente que o mundo mudou. Mudaram as famílias, os hábitos, as relações, os locais onde estudamos e trabalhamos, as formas de comunicar e, sobretudo, a própria maneira como nos relacionamos com as comunidades a que pertencemos.

Antigamente, a comunidade era, em grande medida, uma realidade inevitável. Vivíamos perto, conhecíamo-nos, dependíamos uns dos outros e partilhávamos os mesmos espaços de encontro. A paróquia, as associações, os cafés, as festas e as romarias eram muito mais do que lugares ou acontecimentos: eram elementos estruturantes da vida comunitária.

Hoje, nada disso desapareceu por completo, mas deixou de ter a mesma centralidade.

Em concordância com o Tiago, não me parece justo só por si  atribuir essa transformação aos jovens. Eles vivem simplesmente num tempo diferente, com outras oportunidades, outras formas de socialização e outras prioridades. Não podemos pedir-lhes que vivam como nós vivemos, nem que sacrifiquem o futuro para preservar o passado.

Mas é precisamente aqui que reside a minha preocupação: Há uma rutura.E não sei se aquilo que estamos a construir será capaz de preservar os valores que, durante gerações, considerámos importantes: o sentido de pertença, a entreajuda, a responsabilidade pelas causas comuns, o orgulho nas nossas origens e o respeito pelo legado que recebemos dos nossos antepassados.

As nossas tradições não são apenas manifestações do passado. São uma forma de memória coletiva. Uma romaria, uma festa, uma associação ou uma tradição local representam muito mais do que aquilo que vemos: representam pessoas que, antes de nós, deram tempo, trabalho e dedicação para construir uma comunidade.

É isso que, a meu ver, não devemos perder. Não se trata de querer obrigar os mais novos a repetir os comportamentos dos mais velhos. Trata-se de lhes transmitir o valor daquilo que recebemos, para que possam decidir, à sua maneira, o que merece ser preservado.

O problema é que, perante a perda de população, o envelhecimento e o afastamento progressivo das novas gerações, não sei se teremos gente suficiente — e sobretudo vontade suficiente — para assegurar essa continuidade.

Talvez o futuro encontre novas formas de comunidade. Talvez as tradições se adaptem e algumas sobrevivam. Espero sinceramente que sim.

Mas continuo triste e cético.

Não tanto pelos jovens, mas porque já não existem as condições que fizeram nascer e crescer o espírito comunitário que conhecemos.

E quando se rompe uma continuidade de gerações, não perdemos apenas algumas festas ou costumes. Podemos perder, pouco a pouco, a consciência de quem somos e de onde viemos.

Por isso, enquanto for possível, penso que devemos continuar a defender as nossas tradições, a valorizar as nossas raízes e a sentir orgulho no legado dos que nos antecederam.

Não para viver no passado, mas para que o futuro não fique sem memória.

E, no fundo, talvez seja essa a nossa responsabilidade: fazer a nossa parte, transmitir o que consideramos ter valor e ter esperança de que alguma coisa fique.

Mesmo que, depois de tudo bem agitado, seja apenas o pouco que fica no crivo.

06/09/2026

Tomada de posse do Pe. António Jorge em S. Pedro Ferreira


Neste Domingo, dia 6 de Setembro de 2026, pelas 10:00 horas, decorreu na bela e mística igreja românica de S. Pedro Ferreira, a tomada de posse do nosso ex-pároco, Pe. António Jorge.
Numa manhã bonita, num ambiente deslumbrante, o Pe. António Jorge certamente sentiu-se como recebido em sua casa e pelos seus, dos mais jovens aos mais velhos. 

A igreja, de boas dimensões, que esteve repleta, de gente sentada e em pé, foi pequena para tanta gente da comunidade local e visitantes, que se associaram a este importante momento. No exterior muita gente que não teve lugar, mas atenta e feliz.

Um simples mas bonito tapete a conduzir à igreja foi elaborado com dedicação e rigor. Um grupo coral fantástico, um númeroso grupo de jovens, leitores e cantores de qualidade.

Desconheço como foi a tomada de posse já no dia anterior, na paróquia de Arreigada (que correu pelo melhor conforme me confidenciou o Pe. António em breve conversa), e depois pelas 11:30 horas na paróquia de Frazão, mas certamente a tónica de acolhimento e alegria manifestada pelas comunidades foi semelhante.

Nas palavras do Pe. António Jorge à comunidade, emocionou-se várias vezes e nos agradecimentos procurou não esquecer ninguém que, nas suas palavras, o ajudaram a crescer e a ser o homem e sacerdote que é hoje. Naturalmente um agradecimento aos seus anteriores paroquianos, incluindo de Guisande, Pigeiros e Caldas.

Deixou à comunidade local a promessa de tudo fazer para o seu crescimento, da catequese, adolescentes, jovens e adultos aos mais velhos, mas na certeza de que nada poderá sem a ajuda de todos, todos, todos.

Pessoalmente, foi um privilégio poder assistir a esta cerimónia muito especial, num misto de agradecimento, de sincero desejo de que corra pelo melhor a sua missão, que não será fácil, até porque com novos desafios e pela dimenensão populacional do conjunto das paróquias, bem como de alguma tristeza pela saída de um bom pároco, certamente que com as imperfeições comuns a todos nós, mas com elevado sentido de seriedade no serviço litúrgico e espiritual, organização das estruturas e respeito pelas idiossincrasias de cada comunidade. 

Certamente que entre nós ficou muito por fazer, mas numa decisão do Bispo, a todos os níveis incompreensível, deixou uma inter-comunidade num tempo em que o seu trabalho começaria a dar frutos e já com tempo para melhor fazer o que até aqui lhe foi impossível de forma ideal.

Em resumo, um dia memorável e uma cerimónia muito bonita onde, como nós que viemos de fora, se percebeu facilmente que o Pe. António tem ali comunidades fortes, com muitas capacidades e que certamente será capaz de aproveitar, valorizar e fazer crescer ainda mais. Oxalá que seja capaz! Mas que o Bispo lhe dê o tempo que não deu nas nossas comunidades.

Por cá, como Jesus, não terá agradado a todos, e ovelhas negras sempre existirão no rebanho, mas creio que na larga maioria deixou amigos e amizades. E já saudades.

Bem-haja, Pe. António, e que Deus o ajude a ser feliz com as suas novas comunidades. É hora de trabalhar na messe de Deus.

Ver-nos-emos, por aí ou por aqui!