Pesquisar assentos paroquiais (registos de baptismo, casamento e óbito) para a partir deles se estabelecer ligações familiares e as respectivas árvores genealógicas, é uma verdadeira viagem no tempo, mas quem se aventura na genealogia descobre rapidamente que os arquivos paroquiais portugueses podem ser um autêntico labirinto. Embora estes documentos sejam a espinha dorsal da história familiar antes da criação do Registo Civil (em 1911), a verdade é que os párocos da época não tinham a nossa preocupação actual com a padronização dos dados. São, pois, muitas as dificuldades que se apresnetam a quem tem interesse nestas coisas, como é o meu caso.
Caligrafia:
Uma das barreiras mais imediatas é a paleografia (a leitura da caligrafia antiga) combinada com o hábito cultural de abreviar nomes. Para poupar papel (pergaminho nos primeiros tempos) e tinta, os párocos habitualmente usavam siglas e contracções que hoje nos parecem estranhas. Exemplos comuns: Antº (António), Mª (Maria),`Frco (Francisco), Manl (Manuel) ou Joam (João). E outros mais.
A Ausência de Avós Paternos e Maternos:
Nos assentos de baptismo mais antigos (geralmente anteriores a meados do século XVIII), a estrutura do registo era muito mais simplificada. Era comum o pároco registar apenas o nome da criança, dos pais e dos padrinhos. Por vezes até só do pai ou da mãe.
Sem a menção aos avós paternos e maternos, perde-se a "ponte" de confirmação para a geração anterior. Se o pai da criança se chamar "João da Silva", e na mesma paróquia existirem três homens com o mesmo nome, torna-se quase impossível adivinhar qual deles é o progenitor correcto sem o nome dos avós para desempatar.
Nomes próprios sem apelidos (Sobrenomes):
Até ao século XIX, era perfeitamente normal que os registos de baptismo indicassem apenas o nome próprio da criança. Pode-se encontrar assentos que dizem, simplesmente: Maria, filha de Manuel Gonçalves e de sua mulher Maria Vaz.
A criança crescia e, ao casar, adotava um apelido que nunca tinha sido escrito no seu baptismo. Descobrir se a "Maria" que casou em 1780 é a mesma "Maria" que nasceu em 1760 exige um cruzamento exaustivo de idades, nomes de pais e testemunhas e até intuição.
A barreira dos pais e avós incógnitos:
A realidade social da época reflecte-se cruelmente nos registos através das crianças "expostas" e "enjeitadas" (abandonadas na roda dos expostos) ou dos filhos de mães solteiras. Estas situações são muito recorrentes, sobretudo nos séculos XVII e XVIII mas ainda no século XIX e XX.
Geneticamente e documentalmente, a linha de investigação esbarra num muro intransponível. A árvore genealógica daquele ramo específico é forçada a parar ali, restando apenas a hipótese de seguir a linha dos pais adotivos ou focar-se no outro progenitor, quando conhecido ou recorrer a outras fontes que são raras e de difícil acesso e pesquisa.
A fluidez dos apelidos - ausência de linha directa:
Na regra actual e comum pelo séc. XX, os nomes têm uma estrutura em que os filhos recebem os apelidos do pais, numa ordem mais ou menos fixa, com o apelido da mãe pelo meio e o do pai no final. Antigamente, porém, a escolha do apelido era de uma liberdade caótica. Uma única fratria (irmãos de mesmos pais) podia ter apelidos completamente diferentes. Mesmo com alguma ordem, os rapazes recebiam o apelido final do pai e as raparigas o da mãe. Ainda, um filho homem adoptava o apelido do avô paterno e uma filha mulher adoptava o apelido da avó materna ou mesmo o nome de uma santa de devoção. Era muito comum nas mulheres o apelidos de Jesus. Ainda casos em que um filho tomava o apelido do padrinho ou de um tio rico, por respeito ou esperança de herança.
O impacto:
Esta falta de consistência quebra a lógica da transmissão familiar e exige que o genealogista comprove a irmandade de várias pessoas para garantir que pertencem à mesma família, em vez de confiar apenas no sobrenome.
Conclusão:
Perante todo este conjunto de dificuldades, há situações que se tornam impossíveis de descer no tempo e nas ramificações familiares. Mesmo nos documentos existentes, é necessária muita intuição e cruzamento de vários registos e com eles procurar harmonizar.











