Por estes dias, a propósito de uma publicação sobre as romarias e o futuro das nossas comunidades, num bom artigo de reflexão do Tiago Afonso (de Pigeiros), na sua página de Facebook e no seu blog "Línguas de Perguntador", troquei alguns comentários com o autor que me levaram a aprofundar uma ideia que, no essencial, partilho.
É evidente que o mundo mudou. Mudaram as famílias, os hábitos, as relações, os locais onde estudamos e trabalhamos, as formas de comunicar e, sobretudo, a própria maneira como nos relacionamos com as comunidades a que pertencemos.
Antigamente, a comunidade era, em grande medida, uma realidade inevitável. Vivíamos perto, conhecíamo-nos, dependíamos uns dos outros e partilhávamos os mesmos espaços de encontro. A paróquia, as associações, os cafés, as festas e as romarias eram muito mais do que lugares ou acontecimentos: eram elementos estruturantes da vida comunitária.
Hoje, nada disso desapareceu por completo, mas deixou de ter a mesma centralidade.
Em concordância com o Tiago, não me parece justo só por si atribuir essa transformação aos jovens. Eles vivem simplesmente num tempo diferente, com outras oportunidades, outras formas de socialização e outras prioridades. Não podemos pedir-lhes que vivam como nós vivemos, nem que sacrifiquem o futuro para preservar o passado.
Mas é precisamente aqui que reside a minha preocupação: Há uma rutura.E não sei se aquilo que estamos a construir será capaz de preservar os valores que, durante gerações, considerámos importantes: o sentido de pertença, a entreajuda, a responsabilidade pelas causas comuns, o orgulho nas nossas origens e o respeito pelo legado que recebemos dos nossos antepassados.
As nossas tradições não são apenas manifestações do passado. São uma forma de memória coletiva. Uma romaria, uma festa, uma associação ou uma tradição local representam muito mais do que aquilo que vemos: representam pessoas que, antes de nós, deram tempo, trabalho e dedicação para construir uma comunidade.
É isso que, a meu ver, não devemos perder. Não se trata de querer obrigar os mais novos a repetir os comportamentos dos mais velhos. Trata-se de lhes transmitir o valor daquilo que recebemos, para que possam decidir, à sua maneira, o que merece ser preservado.
O problema é que, perante a perda de população, o envelhecimento e o afastamento progressivo das novas gerações, não sei se teremos gente suficiente — e sobretudo vontade suficiente — para assegurar essa continuidade.
Talvez o futuro encontre novas formas de comunidade. Talvez as tradições se adaptem e algumas sobrevivam. Espero sinceramente que sim.
Mas continuo triste e cético.
Não tanto pelos jovens, mas porque já não existem as condições que fizeram nascer e crescer o espírito comunitário que conhecemos.
E quando se rompe uma continuidade de gerações, não perdemos apenas algumas festas ou costumes. Podemos perder, pouco a pouco, a consciência de quem somos e de onde viemos.
Por isso, enquanto for possível, penso que devemos continuar a defender as nossas tradições, a valorizar as nossas raízes e a sentir orgulho no legado dos que nos antecederam.
Não para viver no passado, mas para que o futuro não fique sem memória.
E, no fundo, talvez seja essa a nossa responsabilidade: fazer a nossa parte, transmitir o que consideramos ter valor e ter esperança de que alguma coisa fique.
Mesmo que, depois de tudo bem agitado, seja apenas o pouco que fica no crivo.


















































