" Eu e a minha aldeia de Guisande" "" Eu e a minha aldeia de Guisande

20/09/2026

Os bons, os maus, os vilões e...os tolos


Houve um tempo em que os loucos tinham um certo ar que lhes emprestava uma aura de fascínio. Nos filmes dos anos sessenta e setenta, conhecidos como spaghetti western, em que os cowboys do oeste americano falavam italiano, sobretudo naqueles em que a realidade parecia ter sido deixada demasiado tempo ao sol, apareciam criaturas singulares, de olhos inquietos, gestos imprevisíveis e uma relação bastante livre com a razão. Não só um Clint Eastwood, como um Lee Van Cleef, mas outros mais, eram magníficos como intérpretes e figuras. Vistos do outro lado do ecrã, podiam ser admirados sem perigo, como se admiram os animais selvagens num documentário: há qualquer coisa de extraordinário neles mas desde que exista vidro entre nós.

O problema começa quando saem do filme. Ter um desses personagens à nossa frente é uma experiência bastante menos cinematográfica. Desaparece a música, acaba o enquadramento e percebemos que não há um Sergio Leone, Sollima, ou Corbucci para dizer quando a cena termina. Ficamos entregues ao homem. E o homem pode ser perfeitamente educado. É isso que mais inquieta.

Diz bom-dia, sorri, pergunta pela família, segura a porta para passarmos. Nas redes sociais agracia-nos com likes e comentários com erros mas lisonjeiros. Parece até um cidadão exemplar. Só que há qualquer coisa no olhar e no historial pessoal que recomenda prudência, uma espécie de meteorologia particular que não conseguimos interpretar. O céu está limpo, mas convém não esquecer o guarda-chuva.

Com certas pessoas, a conversa é uma caminhada sobre gelo fino. Não sabemos exactamente o que fizemos, mas sabemos que alguma coisa fizemos. Talvez o sorriso tenha durado um segundo a mais. Talvez o cumprimento tenha soado pouco sincero. Talvez tenhamos olhado para o lado no momento errado. Talvez uma uma faísca perto de gasolina. Há pessoas que possuem o raro talento de encontrar insultos onde os outros encontram apenas silêncio ou de ver o copo meio vazio quando todos juram que está meio cheio.

E então mudam. Não é preciso grande coisa. Uma sobrancelha levanta-se, a boca endurece, o rosto perde a cortesia e, de repente, aquele homem que há dez segundos parecia incapaz de fazer mal a uma mosca adquire uma expressão bíblica. Não é preciso que tire uma faca do bolso. Às vezes basta a maneira como olha para perceber que a civilização é uma película bastante fina e que, por baixo dela, há ainda qualquer coisa com dentes. Num instante, aquele que parecia todo cortesias, torna-se um inimigo visceral, espalha infâmias e calúnias mesmo que nos mude o nome.

Nessas alturas, fazemos o que a humanidade aprendeu depois de muitas guerras: ignoramos por completo e recuamos com elegância.

Sorrimos, até e continua-se a rotina do cumprimento, o levantar a mão quando passa de carro ou no final da missa ou na caixa do mercado.

Baixamos a voz. Concordamos, quando concordar não custa nada.

Não porque sejamos cobardes, como provavelmente gostaríamos de acreditar, mas porque descobrimos uma verdade prática que os heróis dos filmes com bons  mas sobretudo maus e vilões raramente respeitam: chegar vivo ao fim da conversa ou de uma contenda é uma forma respeitável de vitória.

Depois há os dias bons. Há manhãs em que o céu se conserva azul também dentro daquela cabeça e o homem aparece quase normal, como se voltasse a tomar a medicamentação a horas certas. É precisamente nesses momentos que, tomado talvez por uma estranha necessidade de contacto humano, decide interessar-se por nós, mesmo que sem pedir desculpas, como se nada tivesse acontecido, como se tudo fosse mesmo um filme.

Quer saber por que estamos tão afastados. Pergunta se sempre fomos assim. Questiona a saber de onde nos veio aquele gosto pela solidão, como se a solidão fosse uma doença hereditária que alguém tivesse obrigação de explicar.

É uma situação delicada. Podíamos dizer a verdade, naturalmente, mas a verdade é uma ferramenta que não deve ser usada indiscriminadamente. Há pessoas a quem se pode contar a vida de fio a pavio e há pessoas a quem é preferível falar  de coisas banais como do tempo com ares de meteorologista a antever sol, chuva e trovoada pela aparência das nuvens ou falta delas.

Por isso sorrimos. Dizemos qualquer coisa vaga. Fazemos um pequeno gesto de quem não percebeu bem a pergunta.

E, se percebermos que a conversa começa a tomar uma direcção pouco recomendável, fazemos o que tantos homens sensatos fizeram antes de nós diante de reis, loucos e cobradores de impostos: fazemos-nos de parvos.

É uma arte antiga e subestimada. O idiota, ao contrário do inteligente, raramente é considerado uma ameaça. Já discutir com ele, ganha-nos em experiência. Ademais, são da escola primária as leituras e fábulas das lutas entre moleiros e carvoeiros em que ambos ficam enfarruscados.

Para além de tudo, há momentos em que a melhor maneira de conservar a sanidade é deixar que o outro pense que não temos nenhuma. Afinal, dizem que dois tolos se compreendem como ninguém.

19/09/2026

Zé Coelho - Saudade

 

Fosse vivo e estaria neste dia 19 de Setembro de 2026 a celebrar o seu 100.º aniversário. Mas já partiu, há quatro anos, em 31 de Maio de 2022.

Não estando cá fisicamente, vive espiritualmente entre nós e por isso, de novo o trago aqui em memória.

Apesar de uma relação de amizade um pouco tardia, foram, ainda assim, muitos anos e muitos momentos partilhados.

O seu espírito aberto e alegre ajudaram em muito à sua sociabilidade na nossa comunidade.

Na missa de hoje, Sábado, hoje teve uma missa em sua memória e intenção. 

Que Deus o tenha junto a si.

Mais um livro pela mão do Carlos Cruz

 







Na passada sexta-feira, 11 de setembro, na freguesia de Lomba, em Gondomar, tive o prazer de participar na sessão de apresentação do livro de poesia "Manuel Moreira – Uma forma poética de viver". A obra foi organizada pelo nosso Carlos Cruz, natural daquela freguesia ribeirinha do Douro.

O livro é composto por poemas de Manuel Moreira, um filho da terra e emigrante reformado, que, através de uma poesia simples, realiza uma viagem ao tempo, aos lugares e ao modo de vida de um povo e de uma terra de que já só os mais velhos guardam memória. De certo modo, trata-se igualmente de uma poesia autobiográfica, uma vez que relata o seu percurso e a sua emigração para França, país onde manteve sempre uma forte ligação a Portugal e às suas raízes, nomeadamente através da dinamização de uma rádio e de um jornal, sendo figura reconhecida na comunidade local e imigrante.

Manuel Moreira foi cofundador do Rancho Folclórico de Santa Eufémia de Pé de Moura, motivo pelo qual fez todo o sentido que a apresentação da obra tivesse lugar na sede do próprio rancho, que esteve cheia. Para além da apresentação, houve lugar a fado e à actuação do rancho folclórico.

O livro foi editado pela Junta de Freguesia da Lomba, numa clara demonstração de apoio aos valores culturais da sua gente e da sua terra. Louvável!

Tal como já tinha sucedido com uma publicação anterior dedicada a outra importante figura da Lomba, Joaquim Viana, aceitei o convite do Carlos Cruz para deixar também a minha assinatura na obra, assumindo a paginação, bem como o design e o grafismo da capa.

18/09/2026

O efeito borboleta

Em todo o lado as há: boas pessoas, excelentes pais, filhos amorosos, avós ternurentos, vizinhos prestáveis. Mas, no geral, para bem de todos, convém que a proximidade e a confiança se resumam a episódicas conversas de circunstância: «Como vai? Passou bem? Saúde lá para casa! Dê cumprimentos à patroa!»

Mais do que isso, as relações nem sempre batem certo e, às tantas, sobrevivem apenas graças a uma boa dose de hipocrisia ou fingimento. 

O cada vez maior número de divórcios mostra que também nos casamentos já não há vínculo, sagrado ou civil, que resista a tanto. As promessas mútuas e juras de amor e fidelidade não passam de banalidades pró-forma e ante-câmara de uma festança à grande e à francesa, onde até os pobres e remediados parecem ricos. Mas tudo assenta no vazio, na falta comum de compromisso, na incapacidade de compreensão, aceitação e, vá lá, algum espírito de sacrifício, seja lá o que isso for.

É assim, de um modo geral, mas de forma mais vincada onde o contexto propicia e implica comunidades ou grupos, como, por exemplo, no contexto das paróquias — esses redutos muito particulares onde nem sempre a bota dos ensinamentos evangélicos bate com a perdigota das ações e dos exemplos.

Por conseguinte, são todas excelentes pessoas, no geral prestáveis e voluntariosas quando toca a rebate, mas transformam-se num verdadeiro saco de gatos assanhados numa luta de egos, temperada com invejazinhas, recados indiretos e coscuvilhices. Todos querem ser o galo do poleiro ou o manda-chuva ou, pelo menos, que para além de preces e hóstias, lhes sejam dispensadas reverências ou, mais prosaicamente, colinho e mimos.

É certo que não é por aí que vem o mal ao mundo, mas ajuda a compreender e a aceitar a teoria do efeito borboleta: o bater de asas desse delicado e inofensivo insecto num canto do mundo que pode muito bem dar corpo a uma valente ventania no outro lado.

Resulta daqui, que quando sentimos o efeito de algumas "tempestades", mesmo caseiras, não será mais que alguma inocente borboleta, algures, a bater as asinhas coloridas.

PDM - Aprovada a versão que esteve em discussão pública


Após um atraso de vários anos (desde 2019) e um período de discussão pública de 180 dias, a versão final do novo Plano Diretor Municipal (PDM) para o território de Santa Maria da Feira foi aprovada por unanimidade em reunião de Câmara realizada a 7 de setembro de 2026. A proposta será agora submetida à Assembleia Municipal, prevendo-se a sua aprovação e posterior publicação em Diário da República para, finalmente, a entrada em vigor.

Impacto e Decisões sobre a Freguesia de Guisande:

A versão submetida a discussão pública, no que respeita ao território de Guisande, revelava-se fortemente penalizadora. Registava-se uma perda notória de solo urbano em comparação com o plano de 2015 em vigor, inclusivamente em áreas servidas por arruamentos centrais. Esta situação constituía um entrave significativo ao crescimento urbano e limitava a oferta de terrenos com capacidade construtiva, prejudicando a contenção do fenómeno de despovoamento e perda de habitantes.

A versão agora aprovada — embora mantendo algumas limitações que se afiguram injustificadas — acolheu contudo uma parte substancial dos pedidos apresentados na discussão pública, mitigando assim o impacto da proposta inicial.

Da análise à tabela de ponderação das participações, conclui-se que foram identificados 20 processos respeitantes a pretensões localizadas na freguesia de Guisande.

O balanço global revela uma maioria de decisões favoráveis. Dos 20 processos registados (que perfazem 24 análises, em virtude do desdobramento de um deles):

9 foram acolhidos;

4 foram acolhidos parcialmente;

5 não foram acolhidos;

1 obteve uma decisão mista, face às seis pretensões integradas (2 acolhidas, 2 parcialmente acolhidas e 2 não acolhidas);

1 foi considerado repetido.

Análise dos Critérios e Condicionantes:

Da leitura detalhada dos processos deferidos, depreende-se que o acolhimento não dependeu exclusivamente da existência prévia de infraestruturas. Verificam-se casos em que o acolhimento ficou sujeito a programação temporal e/ou à existência de compromissos urbanísticos (tais como processos de licenciamento ou pedidos de informação prévia aprovados).

Em termos práticos, tal implica que, findo um determinado prazo (em princípio, de 6 anos), os terrenos classificados como urbanos que não sejam edificados ou dotados das respetivas infraestruturas viárias reverterão para solo rural (agrícola ou florestal, consoante o caso).

Trata-se de uma medida relevante, uma vez que incentiva os proprietários a edificar ou a alienar os seus prédios para construção, evitando a manutenção indefinida dos terrenos como mero activo patrimonial passivo, sem utilidade a curto prazo para o desenvolvimento urbano local.

Conclusões e Perspectivas:

Conclui-se, assim, que a freguesia de Guisande registou uma participação expressiva na discussão pública do PDM, tendo uma parcela significativa das pretensões sido integrada na proposta final.

A maioria das participações partiu de particulares. A Junta de Freguesia submeteu 8 pedidos, dos quais 2 foram acolhidos, 2 acolhidos parcialmente e 3 recusados. Afigura-se que uma actuação mais proactiva por parte da autarquia local poderia ter favorecido o acolhimento de outras situações elegíveis, mesmo na ausência de iniciativa individual dos respetivos proprietários até porque estes, no geral, desinformados ou sem capacidade de iniciativa.

Em todo o caso, mais do que contabilizar o número absoluto de pretensões deferidas ou indeferidas, cumpre aos interessados analisar a localização concreta dessas parcelas, a comparação entre a classificação atual e a proposta, bem como a existência de infraestruturas ou compromissos urbanísticos. Apenas essa avaliação cruzada permitirá aferir com rigor o impacto real da revisão do PDM na freguesia de Guisande.


Os elementos e documentos referentes ao processo podem ser consultados aqui.

17/09/2026

Questões do riso

O riso desbragado nunca foi especialidade do Vitorino. Por naturalidade ou para esconder os dentes e o céu da boca, ri-se, no geral, com ela fechada. Esporadicamente, lá se ri de forma mais descontrolada, nem sempre pela qualidade da anedota, da história contada ou da situação cómica vista, mas mais pelo contágio de alguém que ao lado também se ri.

Aprecia, naturalmente, uma boa anedota, o vigor de um dito perspicaz ou a habilidade refinada com que as pessoas de talento verdadeiro expõem o absurdo do quotidiano. O humor inteligente, como o inglês, agrada-lhe, a par de séries de comédia com qualidade — que, diga-se, cada vez mais escasseiam.

Mais do que alheias, certas manifestações de hilaridade provocam-lhe espanto, ficando sem conseguir entender o motivo de tais ditos ou piadas. Observar alguém a emitir urros, de boca escancarada e cabeça arremessada para trás num sobressalto quase epiléptico, é para ele uma experiência genuinamente desconfortável. Há na gargalhada desmedida uma perda de compostura que se aproxima do grotesco.

Esta aversão à gargalhada performativa é, aliás, uma das razões fundamentais que condiciona e limita a sua relação com a televisão, sobretudo com os programas de entretenimento, daqueles próprios de salas de espera e ocupação de reformados. Para o Vitorino, o ecrã transformou-se num recinto de histeria coletiva onde se ri em demasia e sem critério. A gargalhada no pequeno ecrã deixou de ser uma consequência natural do cómico para se converter num vício, numa forma artificial. Mesmo em programas e assuntos que mereceriam mais seriedade, os apresentadores e intervenientes comportam-se ao nível de criancinhas num jardim de infância.

Vão longe os tempos em que os locutores e apresentadores da nossa televisão sabiam comportar-se, ou, melhor dito, ser profissionais e conscientes da natureza de cada programa. De facto, na televisão contemporânea, a gargalhada opera como uma claque invisível e coerciva que dita ao telespectador o exacto momento em que deve achar graça, rir e aplaudir.

A gargalhada televisiva tornou-se uma obrigação contratual. Já não se procura o riso pela subtileza ou pelo enquadramento do absurdo, mas sim pela repetição mecânica de estímulos ruidosos. Perante este cenário de alegria forçada e gargalhadas estridentes, a atitude mais razoável e preventiva para o Vitorino continua a ser, invariavelmente, desligar o aparelho ou mudar de canal. Por alguns programas, já sabendo o que a casa gasta, nem perde tempo com eles, mesmo que sejam considerados de boas audiências — o que não o surpreende, pois há sempre testos à medida das panelas e chapéus ajustados a cabeças certas.

Mesmo no panorama nacional dos ditos cómicos ou humoristas (tipo Bruno Nogueira, Fernando Rocha, Ricardo Araújo Pereira, Joana Marques, etc.), no geral acha que não têm piada alguma e recorrem ao desrespeito, à ofensa e ao palavrão fácil para compensar a falta de originalidade ou talento. A liberdade de expressão concede-lhes desculpa e proteção, as televisões e rádios dão-lhes palco e antena, mas, verdade se diga, quase sempre não passam de uns tristes com pretensões a fazer rir, mesmo que não falte quem se ria do mal alheio.

Nunca, como agora, faz tanto sentido para o Vitorino o velho ditado de que "quem tem muito riso tem pouco siso" ou "muito riso, pouco juízo".


[ilustração: adaptação por IA]